Domingo.
Olhava pro espelho. Uma da tarde. Se já não soubesse que aquilo escorrendo dos seus olhos era a maquiagem da noite anterior, poderia acreditar sinceramente serem lágrimas negras. As pessoas diziam para ela que os olhos são as janelas da alma. Poderia acreditar também que era sangue seco aquele borrão na sua boca, não soubesse ser o batom que sua amiga a obrigou passar na noite anterior. Batom que passou enquanto na televisão do quarto era transmitido um programa de humor que ela não entendia, assim como não entendia porque sua amiga ria.
Domingo.
O dia que mais gostava por ser o que mais proporcionava coragem para fazer o que sabia que um domingo ou outro faria, um domingo daquele ano ou dezenas de anos depois. O dia que mais pensava na coleção de armas do pai, em cordas, remédios e uísque. Pensava na razão das pessoas terem uma corda em casa. Ela não tinha uma, só pensava em dois usos para uma corda. Para cavalos ou para pessoas. Portanto se a pessoa não tem um cavalo em casa, ela tinha no mínimo um plano pra domingo.
Domingo.
Espelho. Lembranças. Escreveu algumas cartas de amor quando criança, mas já não fazia isso havia um bom tempo. Prometeu a si mesma que só escreveria mais uma carta na vida, só não lembrava o porquê da promessa. Fez questão de apagar da mente. A grande quantidade de fumaça inalada a ajudou ofuscar a lembrança. As pessoas diziam se tratar de um trauma, mas ela gostava de chamar de neblina da mudança.
Domingo.
Enquanto olhava para suas lágrimas negras e seu sangue seco podia ouvir sua mãe berrando para que se apressasse, pois já estavam atrasadas. E enquanto a torneira jorrava, sua mãe berrava, seu cachorro latia e sua cabeça latejava, só conseguia pensar na próxima carta. Aquela que, escrita em algum domingo não datado, certamente teria Hemingway citado.
Domingo.
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