Atrás dele eu vejo um pôster pendurado na parede, o pôster que ele me deu quando completamos um mês de namoro. É da nossa banda preferida e que também toca a “nossa” música, você sabe, todo casal tem uma. Lembro de quando ganhei esse presente, e agora estou prestes a ganhar outro, um tiro na garganta.
- Este vai ser o presente de um ano de namoro - é o que ele repete aos berros sem parar.
Malditos momentos em que temos uma escolha para fazer e escolhemos errado, ou que decidimos agir pela nossa tão superestimada intuição feminina em vez de ouvir outra pessoa. Um amigo, um familiar, um mendigo.
Não é a primeira vez que erro, é óbvio, mas é a primeira vez que um erro chega nesse tipo de situação.
Ele sempre foi carinhoso e calmo, e eu nunca o imaginei coçando o nariz assim repetidas vezes com esse puta revólver nessa puta mão que mais parece uma puta com parkinson. E afinal, de onde ele tirou esse revólver? Como uma pessoa que você acha que conhece tão intimamente pode mudar tanto? Como um fim de relacionamento pode chegar a tal ponto? Como alguém que vivia com flores que cheiravam vida na mão pode portar agora um ferro com esse cheiro forte de morte. Como podem surgir tantos questionamentos de uma vez?
Enfim, eu devia estar pensando em outras coisas. Estes não parecem ser os pensamentos de alguém com um cano gelado enfiado na boca enquanto lágrimas escorrem por todo o rosto. Acho que deveria estar pensando na família, pessoas que amo, sei lá, algo parecido.
Lá fora só se ouve sirenes e o burburinho dos curiosos. A janela fica vermelha e preta, vermelha e preta, vermelha e preta. O pôster fica vermelho e preto, vermelho e preto, vermelho e preto. O rosto dele, transfigurado e suado, vermelho e preto, vermelho e preto.
- Você é meu pretérito perfeito – disse, beijando minha testa.
Acho que chegou a hora. Você nunca sabe quando é a hora, só imagina que é a hora.
O tempo para.
Silêncio.
O ferro já não está gelado.
O tão célebre silêncio que precede o esporro.
E finalmente.
Pronto.
Esporra-se. Mas não na minha cara e sim na dele. Os policiais invadem pela janela, aquela que continua ficando vermelha e preta e pela qual veio o som do esporro e dos vidros quebrando.
Caído aos meus pés com o semblante de puro prazer eu o vejo com um buraco do lado esquerdo da cabeça. Não consigo pensar. Preciso colocar as idéias em ordem. Preciso. Preciso ficar calma e pensar. Mas acho que agora tenho tempo para isso. Agora tenho tempo para isso. É, eu tenho bastante tempo. Tenho todo o tempo do mundo. Afinal, acabo de perceber que ele também não errou, acabo de entender toda a libido daquele rosto.
Ele também chegou lá.
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